Dunkerque (França),
manifestação nacional da associação de defesa de vítimas do amianto
O amianto, um produto prejudicial à saúde, tem coberto com seu manto
invisível a vida dos países desenvolvidos. Proibido nessa região do planeta,
embora não extinto, atualmente ameaça a população dos países mais pobres. O
Brasil é um dos maiores produtores mundiais de amianto.
Desde o começo do século passado, o amianto se tornou o principal material da
maior parte das construções. O material é um grupo de minerais fibrosos,
compostos de silicatos, caracterizado por suas fibras longas e resistentes, que
podem se separar, apresentando a particularidade de poder ser entrelaçadas
solidamente e resistir a altas temperaturas.No começo do século 20 se inventou
um procedimento pelo qual, misturado com o cimento, dava lugar ao amianto
cimento ou fibrocimento, utilizado especialmente nos encanamentos de água
potável, telhas onduladas e – como é um produto ignífugo, que resiste muito bem
ao calor – para recobrir elementos que precisam ficar expostos ao calor.
No trabalho, no lar e até no ar
Francisco Puche, membro da organização Ecologistas em Ação, editor, escritor,
que faz parte da Federação Nacional de Vítimas do Amianto, explica que "já
existiram até três mil produtos de diferentes tamanhos e condições que
continham amianto, como por exemplo torradeiras, filtros de cigarros, filtros
de água e encanamentos, pinturas impermeabilizantes, pastilhas e sapatas de
freio, pavimentos”.
“Além disso, como era muito flexível, podia ser usado como tecido em cobertores
ou tecidos isolantes, assim como na indústria naval. Estava em todas as partes,
de modo que houve uma espécie de contaminação geral de fibras de amianto no
ambiente", continua.
Mina Jeffrey em Asbestos,
Québec (Canadá), que opera desde o final do século 19 e se dedica ao amianto
branco.
Devido a essa variedade de usos, a exposição ao amianto atualmente pode ser
ocupacional, doméstica ou ambiental. Em um estudo publicado pela Organização
Internacional do Trabalho (OIT), no ano de 2006, se estimava em cem mil o
número de pessoas que morrem por ano no mundo como consequência da exposição ao
amianto.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), em um relatório realizado em 2010,
assegurava que no mundo há cerca de 125 milhões de pessoas expostas ao amianto
no local de trabalho e, segundo cálculos desta organização, a exposição laboral
causa mais de 107 mil mortes anuais por causa de câncer de pulmão relacionadas
com esse material.
Além disso, afirmava o relatório, um terço das mortes por causa de câncer de
origem laboral são causadas pelo amianto.
O produto industrial mais mortal da história
Para Puche, o amianto é "talvez o produto industrial que mais mortes vai
causar na história da humanidade, mais do que o tabaco, porque vem sendo usado
há muito tempo e porque também é muito difundido".
Cerca de 70% das pessoas que estão expostas no trabalho caem doentes, mas
também faz adoecer 30% dos que não estão assim expostos, ou seja, as pessoas
que vivem perto de fábricas ou que são parentes dos próprios trabalhadores.
O amianto em sua elaboração industrial se esmiúça em fibras muito pequenas. Da
ordem de uma milionésima parte de um metro, que passam a ser fibras invisíveis
e indestrutíveis, "em grande parte porque são muito resistentes aos ácidos
e ao fogo, portanto permanecem quase mais tempo que a energia nuclear e está em
todas as partes, no ar, na água e, portanto, nos alimentos", explica o
ecologista.
Puche assinala que "as primeiras informações sobre os males do amianto
para a saúde remontam ao ano de 1898. Depois, ao longo dos primeiros 50 anos do
século 20, foram feitos estudos científicos cada vez mais sérios onde se foi
demonstrando a toxicidade deste mineral. O problema é que houve muito tempo de
latência entre a exposição e a morte ou surgimento da doença, e por outro lado
a fibra é invisível, não se vê nem tem cheiro".
Mas, além disso, Puche lamenta que tenha havido "uma grande conspiração do
silêncio porque era um material muito rentável, muito flexível, servia para
muitas coisas e não interessava de nada para as empresas que se descobrisse sua
toxicidade. Somente no começo da década de 90, e sobretudo a partir de 2000,
que se começou a proibir o produto nos países desenvolvidos. De fato, atualmente
é proibido em 55 países".
Países em desenvolvimento
O que a princípio foi um fenômeno nos países desenvolvidos, atualmente a
construção com este material barato emerge nos países em desenvolvimento, com a
consequente incidência futura que terá sobre a saúde de suas populações.
"No século 20, até a década de 1990, os países mais afetados eram os
Estados Unidos e os da Europa, ou seja, onde mais se consumia amianto. Agora,
como lá é proibido, os países mais afetados são Rússia, China, Índia e alguns
da África. Na América Latina, a metade de seus países também foi muito afetada,
mas já começa a haver um processo de proibição que começou na Argentina, Chile
e parte do Brasil".
O Brasil um dos maiores produtores mundiais de amianto. Segundo a Associação
Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), o mineral é utilizado em quase 3
mil produtos industriais, como telhas e caixas d'água. O baixo custo do produto
e sua alta resistência favorecem o consumo.
Outra das arbitrariedades que se cometem, diz o ecologista e escritor, é que
"países onde seu uso é proibido, como no Canadá, o amianto é extraído mas
não consumido, sendo exportado para outros para que o transformem. São empresas
instaladas em países com o amianto regulamentado, mas com interesses econômicos
em outras empresas localizadas em países onde ele não está".
"Há muita cumplicidade entre os países desenvolvidos onde se encontra um
tremendo problema na hora de eliminar o amianto", adverte Puche.
"Costuma-se assegurar que o amianto não prejudica mais a saúde, mas isso
não é verdade, porque constantemente ele está sendo quebrado ou manipulado e,
como por cada 12 milímetros de largura de uma placa pode sair um milhão de
fibras que podem ser inaladas, se torna um enorme risco cancerígeno. Há gente
que com uma dose muito pequena pode contrair câncer de pulmão depois de 30 ou
40 anos. Esse é o problema", acrescenta o especialista.
Também, uma das atuações de muito duvidosa moralidade é a que explica o
ecologista que está acontecendo em alguns países onde "os navios que foram
construídos há mais de dez anos estão cheios de amianto e, na hora de seu
desmantelamento, são enviados aos países asiáticos pobres. Ali, as pessoas, por
três dólares ao dia, se dedicam a tirar o amianto sem nenhum tipo de proteção e
é gente muito jovem, por isso que o número de mortes que haverá dentro de 30 ou
40 anos vai ser imenso".
E para pôr fim a este grave problema de saúde pública ao qual a população está
exposta, Puche diz: "Há lugares muito sensíveis porque há crianças, idosos
e doentes onde existe o amianto. Portanto, uma das coisas que nós pedimos é que
se faça um registro dos lugares e prédios sensíveis. A partir daí, realizar um
programa para desamiantar, começando pelo mais urgente, e dedicar um orçamento
em nível governamental. Fonte: yahoo notícias saúde